A torcida única tirou um pouco do charme dos clássicos

Jogos podem deixar de ser um produto atrativo

É indiscutível que os clássicos estaduais continuam mexendo com as emoções do torcedor e é sempre um momento esperado para o amante do futebol ver grandes partidas. Como é gostoso o clima que antecede ao jogo e que legal é a resenha no dia seguinte com as brincadeiras e discussões polêmicas junto com os amigos né? Sim, é isso que faz o esporte bretão ser tão especial, mas atualmente os clássicos do futebol paulista estão perdendo um pouco do charme.

Os clássicos no Brasil já não têm o mesmo nível técnico de décadas anteriores pelo fato dos jovens talentos brasileiros serem vendidos cada vez mais cedo ao futebol do exterior. Ainda é possível ver grandes jogos, porém o evento não é bem tratado e consequentemente as disputas viram produtos menos atrativos tanto para torcedores quanto para a mídia.

No último sábado (27) São Paulo  x Corinthians duelaram no Pacaembu e uma das principais partidas da 1ª fase do Paulistão não foi televisionada em TV aberta. Tudo bem que atualmente o torcedor de classe média pode acompanhar o time pela internet, a TV por assinatura é mais acessível e há vários barzinhos transmitindo os jogos, mas na televisão aberta um pré-jogo mostrando as expectativas do clássico e exaltando sua a importância valorizaria muito mais o campeonato e a partida deixando o público mais próximo do duelo do que em um jogo realizado sábado a tarde exibido apenas em TV fechada. A não exibição do jogo também pode significar uma elitização pelo fato de nem todos torcedores possuírem TV por assinatura e quem cuida do campeonato jamais deve esquecer que pessoas de classes mais baixas também são importantes na popularização do futebol e um clássico é uma ótima oportunidade de conquistar a audiência desse tipo de público.

No quesito festa nas arquibancadas o futebol paulista tem poucos motivos para comemorar. Diferentemente dos clássicos do Rio de Janeiro, onde ainda é possível ver duas torcidas dividindo a arquibancada e fazendo uma grande festa, em São Paulo apenas uma torcida pode frequentar o estádio e fazer o espetáculo. Mas que espetáculo? Bandeiras, faixas e festas não resistem as proibições impostas pelos falsos moralistas que comandam o futebol.

Momentos finais da decisão do Paulistão 2003 no Morumbi com torcidas de Corinthians e São Paulo dividindo o estádio

Os engravatadões responsáveis pelas organizações que cuidam do futebol, sempre estão propondo soluções fáceis para problemas complexos. Implantaram a medida da torcida única,  mesmo sabendo que a maioria das brigas acontecem fora dos estádios. Resta ao torcedor tolerante ficar sem o direito de ver seu time jogar uma partida importante fora de casa, enquanto os brigões continuarão aprontando, e no fim, muitos torcedores que não tem culpa da violência serão as verdadeiras vítimas das restrições nas arquibancadas. Resultado: os clássicos ficam mais frios sem o espetáculo das duas torcidas, o torcedor que não cometeu nenhum delito é obrigado a ficar fora do jogo e os briguentos continuarão soltos cometendo atrocidades, mesmo que seja fora do futebol ou dos estádios.

No Paulistão, o melhor estadual do Brasil, não haverá mais imagens das torcidas dividindo o estádio e criando um belo contraste de cores, vozes e emoções. O pior é que as vitórias dos visitantes em clássicos de São Paulo não proporcionarão mais as festas das minorias que calavam os torcedores do time da casa, ou seja, a equipe vencedora da batalha vai ter apenas os jogadores comemorando timidamente em campo. Vejam só, alguns estádios superhipermegablastermodernos, cheio de padrões e equipamentos modernex, são incapazes de receber duas torcidas.

No fim do campeonato corremos o risco de ver a bizarra cena do campeão levantando a taça sem ninguém na arquibancada para comemorar, o que pode tirar ainda mais o charme de um clássico decisivo.

Trechos de Corinthians e Santos que teve duas torcidas no 2º jogo da final do Brasileirão 2002, último no formato mata-mata

Fico preocupado que as próximas gerações cresçam aceitando a ideia de  impossibilidade de viver com o diferente, já que a torcida única passa uma mensagem de banalização e permissão da intolerância.

A medida da torcida única é algo simplório para tentar resolver a violência, que não é um problema exclusivo do futebol e sim da sociedade brasileira. As brigas geralmente acontecem fora dos estádios e não é deixando apenas uma única torcida na arquibancada que os problemas serão resolvidos de uma hora para outra e muitos menos será algo educativo, já que quem arruma o futebol como pretexto para brigar com certeza vai arranjar outras maneiras de participar de pancadarias. Punições coletivas não são soluções e na verdade há uma má vontade das autoridades em combater a violência de uma forma que não afete quem não tem nada a ver com o problema.

Trechos do 2º jogo da final do Paulistão 1993 entre Palmeiras e Corinthians, partida que tirou o Palmeiras da fila

O ideal é as autoridades realizarem trabalhos de identificação dos vândalos para que eles não fiquem nas arquibancadas ou atrapalhem a vida de quem quer ir ao jogo, assim a punição seria para os infratores sem interferir no direito do torcedor que quer apenas apoiar sua equipe. Seria interessante que a torcida visitante nos clássicos tivesse sócios torcedores com um cartão de identificação para um cadastro de dados, isso poderia ajudar os clubes e os órgãos de segurança na identificação de alguém que cometesse algum ato de violência, além disso, valorizando o torcedor que não comete atos de violência, seja ele sócio ou não, diminuiria a chance de o espaço ser ocupado por alguém de histórico agressivo. Uma outra ideia que poderia servir para sócios ou não sócios é trabalhar com banco de dados para ajudar a identificar pessoas ou grupos envolvidos com atos de vandalismo no futebol.

Os clássicos com torcida dividida ou presença dos visitantes, mesmo que fosse minoria, passava uma emoção maior e tornava o “show” muito mais atrativo para as mídias responsáveis pela transmissão e divulgação do evento e também para o público em geral.

Na Itália, Lazio x Roma dividem o Estádio Olímpico proporcionando um grande espetáculo, mas infelizmente nesse clássico é comum casos de violência entre as duas torcidas

Continuarei acompanhando os clássicos e o gosto da vitória sempre será especial, mas não sinto a mesma emoção quando meu time ganha um clássico fora de casa e não há ninguém para comemorar. Sentirei menos emoção ainda caso o Palmeiras fique campeão jogando fora de casa com torcida única sem nenhum torcedor para aplaudir e vibrar com o título.

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