O darwinismo futebolístico do futebol europeu não é nada saudável para o esporte e é bom que não aconteça por aqui

LUCAS DORTA

Por Lucas Souza Dorta

O darwinismo futebolístico do futebol europeu não é nada saudável para o esporte e é bom que não aconteça por aqui

Começou nessa segunda-feira (22) a Copa Libertadores da América, esse torneio que apesar da desorganização e desmandos da Conmebol continua proporcionando grandes emoções aos amantes do futebol. E todo ano é inevitável que jornalistas brasileiros comparem o futebol da América do Sul com o futebol europeu. É óbvio que temos muito a aprender com a Europa na questão da organização e valorização dos campeonatos, tratamento ao torcedor, marketing e divulgação das marcas, mas isso não significa que o Brasil e outros países da América do Sul tem ser um “ctrl C + ctrl V” da Europa. Nem tudo do futebol europeu atual faria bem ao futebol do nosso continente.

Um dos principais pontos que causam críticas na comparação entre o futebol sul-americano e o europeu é o nível técnico. Sim, tudo bem, mérito dos nossos colonizadores que souberam se organizar e divulgar suas marcas para ganharem dinheiro e contratarem os melhores atletas, mas a imprensa brasileira critica o nível técnico da América do Sul como se somente a falta de organização fosse culpada por esse abismo, quando na verdade também há uma questão financeira que atualmente causa uma desigualdade absurda podendo ser vista até dentro das ligas européias. Reparem quantos torneios europeus ainda possuem uma competitividade interessante. Com exceção do campeonato inglês, as grandes ligas européias têm no máximo dois ou três times que disputam o título e em alguns países a disparidade técnica e econômica ficou tão grande que é comum ver apenas UM time conquistando os campeonatos com facilidade durante vários anos seguidos. Jamais o futebol da América do Sul pode chegar a esse ponto um dia e se esse darwinismo futebolístico acontecer em nosso continente será péssimo para as competições.

Vamos falar agora da Champions League, considerado o maior campeonato do mundo, cheio de grandes clubes que chamam a atenção do mundo. Muitos jogos são legais de assistir, mas comecei a ficar desinteressado por sentir que virou mais uma competição entre duas ou três “maçonarias” da bola que formaram uma elite dominante do futebol que dificilmente vai perder seus privilégios e terá eternamente os melhores jogadores. Tenho saudades da época que comecei a acompanhar o futebol europeu e podia ver um torneio com vários times favoritos ao título da Champions e craques distribuídos entre diversos clubes. Não sinto mais tanta animação em ver três ou quatro seleções mundiais que conquistam vitórias fáceis e previsíveis nas competições européias e nos seus campeonatos nacionais, e o pior é que na Champions todos sabem que Barcelona ou Real Madrid provavelmente estarão entre os quatro primeiros e que essa dupla vai contratar facilmente os melhores jogadores dos times tradicionais de menores investimentos.

Como é triste ver atletas que vão para um grande da Europa já pensando em utilizar um clube como ponte para em breve tentar uma transferência para um dos três ou quatro times que tem o poder financeiro e técnico. Qual a graça em saber que as mesmas equipes terão sempre seleções mundiais e crescerão cada vez mais financeiramente aumentando o desnível técnico, enquanto outros clubes tradicionais vão ficar satisfeitos apenas com algumas vaguinhas ou lampejos de times grandes?

O futebol, que era um esporte democrático, está refletindo a desigualdade na sociedade. Sinceramente, não vejo vantagem nenhuma em ter os melhores jogadores do mundo e as maiores cifras se toda riqueza e possibilidade de alcançar o topo da pirâmide fica nas mãos de poucos times. Preferia quando a Europa tinha vários grandes jogos e não apenas um grande jogo e o resto das partidas entre um time que vai desfilar em campo e ganhar com tranquilidade de uma equipe que servirá apenas de escada para os gigantes. Essa questão pode até abrir uma reflexão sobre o nível técnico do futebol europeu: será que a maioria dos times realmente são melhores ou o que vemos é apenas uma elite que tem os melhores jogadores?

Acredito que o futebol sem a imprevisibilidade deixe de ser apaixonante com o tempo e se transforme em um programa entediante em que todos sabem o que vai acontecer no final. Para o torcedor não é legal ganhar sempre, já que o apaixonado pelo time pode começar a tratar a vitória como algo comum e assim ele não vive as emoções do futebol em sua plenitude, e as vitórias óbvias consequentemente deixam os títulos menos históricos já que isso será uma rotina que dificilmente vai mudar. Hoje vemos que em muitos campeonatos europeus há cada vez menos vibração com certas conquistas pelo fato delas se transformarem em mera formalidade. Esse futebol com times estilo “Liga Máster” não é saudável para o esporte e é vantajoso para poucos, e não seria nem um pouco legal ver algo parecido aqui na América.

Lógico que a questão financeira pode fazer a diferença na América do Sul ou em qualquer local que se pratica o futebol, as vezes isso é necessário para que os times aprendam a ter planejamento e gerenciar sua marca, assim como Palmeiras e Flamengo estão fazendo. O problema é o sistema financeiro do futebol forçar a barra para privilegiar poucos times. Felizmente na América do Sul ainda é possível ver times tradicionais ou organizados com menor poder financeiro levantando alguma taça. Essa competitividade deve ser vendida para o mundo ao invés de querermos apenas copiar o que é de fora sem questionarmos se realmente é o modelo ideal para o esporte.Que tal começarmos a exaltar pluralidade das ligas da América do Sul ao invés de pagar pau para ligas insossas da Europa? Que tal mostrar a manifestação popular na arquibancada e a identificação das torcidas pequenas com os times do bairro ou da cidade ao invés de exaltarmos o fato de clubes globais terem torcida pelo mundo inteiro graças a mercantilização do futebol? Que tal valorizar mais a habilidade e a capacidade de improviso dos jogadores da América do Sul?

Sim, precisamos evoluir em muitos aspectos, mas não devemos virar um futebol para poucos como está o futebol europeu hoje.

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